quando pensei em escrever uma carta pro futuro, a decisão de recorrer à tecnologia e não ao ato de escrever à mão, como sempre preferi escrever, veio até que naturalmente. eu estranho um pouco, porque gosto de ler o que escrevo à mão. olhar a rasura nos meus registros, ler que preferi uma palavra à outra que me veio com mais facilidade mas menos precisão. gosto de como minha caligrafia muda a depender da caneta, da superfície, e do meu próprio estado de cabeça.
acontece que confio menos na minha capacidade de guardar papéis do que na de não esquecer a senha pra essa caixa de entrada nos próximos anos. assim se vê que a aposta que faço hoje na pessoa que ainda vou virar já começou meio… alta.
ainda assim, não quero escrever sobre quem espero ser quando chegar aos 40 e com isso posso afirmar que aos 30 continuo um tanto como fui aos 20: tendo dificuldade de me imaginar a longo prazo, por medo ou certeza da mudança das circunstâncias, mas principalmente das mudanças em mim.
a parte boa é poder abraçar a constatação de que, provavelmente, a minha versão de 31 já vai desejar diferente de como a de 30 deseja. a parte ruim continua sendo não ter muita coragem pra sonhar pra mais pra frente que isso.
não sei dizer quando foi que criei essa aversão à possibilidade da mudança que pode afetar meus longos prazos, mas poderia apostar que vem do mesmo lugar que o medo da mudança que chega com uma rejeição. a que acontece quando você quer uma coisa que não te quer de volta e o pior não é nem isso, mas a alternativa a correr esse risco: não querer mais nada.
como se não pudesse ser eu quem poderia vir a abandonar (minhas ideias, meus sonhos, minhas pessoas, meu lugar). meu desejo! esse que penso tanto que pode e deve mudar. acho que a maior mudança ao longo dos meus vinte e tantos é que hoje sou eu quem tá mudando e indo embora.
escrever pro futuro sem grandes projeções pra ele, na verdade, até que me anima. escrevo sem o receio de que lá na frente vou ter virado uma estranha pra quem escreve hoje. hoje escrevo essa carta pra, quando ler, me lembrar de quem fui, do que amei, e da mistura entre essas duas coisas que no fundo são uma só.

outro dia, tentando me explicar o surgimento de tantos fios brancos na minha cabeça, o cabeleireiro disse que as maquininhas de melanina do meu cabelo estão quebrando e não tem conserto. é tonalizar ou clarear o resto dos fios pra disfarçar. e assim tem sido a tentativa de manutenção da minha imagem como me lembro de gostar. o que eu não gosto nisso: o tempo e o dinheiro gastos tentando voltar (não à uma versão mais nova de mim, mas à uma que ainda não mudou).
eu espero que em alguns anos eu tenha parado de tentar
não mudar

esse ano tem sido uma pica, e um compromisso que posso fazer com você, minha versão do futuro, é não mentir sobre isso. há não muito tempo, foram o que, seis meses? por aí. eu achava que sabia. hoje tenho olhado pra minha vida, que parece se abrir num tabuleiro em formato de labirinto pra mim, e querido desistir de tentar entender até alguém de boa vontade e um amor descomunal por mim me chamar de volta pra mesa e, com calma, me ensinar como é que joga. alguém que me mostrasse, não só me contando da própria experiência, atitude pra qual eu provavelmente reviraria os olhos, mas mostrando que não é tão difícil como parece. viu só?
nas provas de macroeconomia na faculdade, eu pulava as questões quando via que tinha espaço pra dar a resposta em gráficos. me recusava a tentar entender e morria de vergonha do professor que iria corrigir minha tentativa de resposta. então, nem tentava. até que um dia uma amiga me ensinou, e eu criei coragem pra ler o enunciado.
hoje não dá pra dizer que aprendi macroeconomia exatamente, mas tento me lembrar de que nunca é tão difícil ter coragem como à primeira vista, e que a primeira vista costuma acontecer, primeiro, dentro de mim.
eu achava que sabia. o que me faz me sentir eu. hoje parece que essa é a principal pergunta. vou contar do que eu amo
dos meus medos
e do que me angustia hoje
pra talvez em dez anos ler rindo ou bem séria diante da constatação
de que tudo mudou
e nada mudou.
essa carta, então, tem a função de um registro de coisas que, justamente por mudarem tanto, temo que caiam na minha relativização. culpa da distância entre quem viveu e quem vai lembrar.
a memória, essa forma como a gente olha pra uma história que já passou, até tenta cobrir essa distância mas não faz dela verdade. ela sempre termina picotada, remendada, costurada, pronta pra servir quem vai acessar o registro, mesmo que esse alguém seja só a gente mais velho.
por falar em velho: lembro de dizer, quando comecei a fazer amigos mais novos que eu na faculdade, que me sentia velha quando lembrava o ano de nascimento deles, mais próximos de 2000 que de 90. a bia ria de mim, e me chamava de idosa. hoje, não sinto nem que envelheci desde lá. os amigos são os mesmos, e gosto de pensar que fico o mais velha que já estive com eles.
não sinto que as maquininhas quebradas sejam constatação da minha idade, nem desgosto de ver o tempo passar pelos anos que faço. a alternativa a envelhecer é tão perversa que não merece ser mencionada, nos lembra meu querido drauzio.
primeiro pensei em escrever pra servir quem vai acordar aos 40 em dez anos. pra contar das minhas angústias de hoje e dizer que torço com toda força pra que, essas sim, mudem. torço pra que uma hora eu vire o disco.
quero contar que cheguei aos 30 sabendo dizer do que eu quero ser e ter nessa vida, em termos gerais. até fiz uma lista, que como todas minhas listas nunca são só de itens, mas se eu tivesse que literalmente listar, envolveria: conforto, segurança, movimento, curiosidade, e me manter engraçada.
eu espero que você, do lado daí dos nossos anos, siga cheia das suas gracinhas. que continue se satisfazendo como quem descobriu um tesouro toda vez que sentir que encontrou mais alguém que, enfim,
entendeu.
a newsletter de hoje é um amontoado de fragmentos deletados de um email que escrevi no meu aniversário do ano passado, pra ler em 2035.
e hoje é meu aniversário. parabéns pra mim 🎂
um beijo,
mari







felicidades, mari! 🌞