oi! te escrevo hoje de Hamburgo, no finalzinho da minha primeira vez por aqui. tem feito sol e os dias já têm ficado mais longos.
ontem fez 20º às 21h. um marco.
os últimos meses do lado de cá foram os mais frios que já vivi desde o canadá, há quase 10 anos, e nesse tempo eu me vi algumas vezes resgatando as memórias do que eu fazia pra lidar com a mudança desse tipo de estado das coisas. pensando em como eu agora faço quase tudo diferente.
como aquela versão de mim, a que saía de casa de cropped e calça jeans em tempos de menos vinte graus, alimentada com um pão de forma o dia todo (pra não ficar bloated), com uma garrafa de vinho na mão e um sonho (o de voltar pra casa, a minha ou qualquer uma, no raio das casas de estudantes onde a gente morava em Sandy Hill) existiu nesse corpo que hoje te escreve, nem eu sei. parece outra vida.
não só porque a versão de hoje valoriza comida, conforto, e comida conforto de uma forma que aquela ainda não tinha concebido. mas hoje também percebo que fui uma jovem adulta que se enxergou adulta pouquíssimas vezes, e que tratava a vida com um baita medo de que logo logo não se veria mais jovem. lembro de ponderar minhas decisões já imaginando como contaria, no futuro, a história do que eu tava prestes a viver.
já olhando pra ela no passado.
reviver o inverno, tão longo pros meus parâmetros, me levou a olhar pro que mudou da minha versão de vinte e poucos pra de trinta. é um alívio ver que a de hoje não se agonia mais quando perguntam qual o plano agora.
a de hoje não se apressa

nesse inverno, eu calibrei meu nível de ambição pras próximas mudanças: se tudo der certo, não vou virar uma pessoa que não vou reconhecer em 10 anos, e provavelmente eu fique mais parecida com quem eu era antes dos 20. talvez antes dos 10, até. mas, por agora, a intenção é encontrar um equilíbrio entre a busca por preencher os espaços que as últimas mudanças deixaram enquanto também me deixo andar por aí cheia de questões por responder (a maioria das minhas questões é dissertativa, das que demoram mais pra elaborar).
desde a Última Mudança (a mais complexa das decisões de quem agora se vê adulta), tenho prestado atenção nas perguntas que a vida nova tem feito, das pequenas às grandonas. não pra buscar por uma resposta exata, pra ser mais exata, mas até pra responder com outra pergunta onde couber.
aqui, vale.
uma lista de escolhas que fizeram parte do meu dia-a-dia
nos meses de inverno:
🤎 água com ou sem gás: temos uma máquininha de gás em casa!!! — e eu descobri, a contragosto, que água com gás não mata a sede do meio da noite. nesse inverno meu consumo de água com gás cresceu em 150% em relação aos últimos anos, e eu agora categorizo água com gás em uma subcategoria das fun-drinks: a not-so-fun drink, junto apenas com coca-zero (que eu detesto, mas não recuso se oferecem). dias cinzas pedem uma fun drink, mesmo que seja uma não tão fun assim
🤎 café com leite ou com espuma: flat whites > cappuccinos quase sempre
🤎 natação ou musculação: varia de acordo com a minha disposição pra lavar o cabelo
🤎 esmalte colorido ou neutro: voltei a fazer as (minhas próprias, óbvio) unhas toda semana, e quase sempre pinto de colorido porque sinto que é das poucas coisas personalizáveis que as pessoas vêem da gente na rua nos dias mais frios. amarelos são meu novo go-to
🤎 yoga ou pilates: varia de acordo com a disposição pra ser humilhada vs. a disposição pra sentir um tantinho de dor. yoga pro primeiro, pilates pro segundo. tenho ido mais de yoga
🤎 almoçar comida de café da manhã e jantar comida de almoço, ou almoçar comida de jantar e jantar comida de lanche: varia de acordo com o tempo que eu arrastei tomando café de manhã e a fome que sobrar depois
🤎 sair pedalando já de luva ou arriscar ter que parar no caminho pra botar, se as mãos começarem a congelar com o vento: quase sempre arrisco. às vezes, me arrependo, mas essa é a deixa pra contar que reaprendi a pedalar sem as mãos pra poder dar uma esquentadinha botando elas nos bolsos
🤎 não-ficção ou romance: as mudanças dos últimos anos me trouxeram o apreço por ler ficção de volta, mas as dos últimos meses me deram vontade de voltar a me aprofundar em assuntos que gosto e não envolvem trabalho. então, a não-ficção voltou pras minhas listinhas de leituras-estudos.
a parte boa é que tenho me visto curiosa e me apegado a algumas histórias a ponto de não conseguir largar um livro por dias — na moral, que delíciaaaaa. a ruim é que tô naquele ponto de, de vez em quando, me sentir malzinha concluindo que nunca vou conseguir ler tudo que quero nessa vida.
mas essa sensação também me vem com outras coisas, tipo quando penso que nunca vou conseguir experimentar todas as comidas que existem pra experimentar, nem conhecer todas as pessoas e lugares que existem pra conhecer.
enfim, algumas micro-decisões trazem consigo macro-constatações, e cabe a nós reduzi-las a micro de novo e enfim decidir, aqui e agora, o que escolher da pilha de livros pra ler hoje antes de dormir.
mudança assistida
a primeira Mudança do ano por aqui ainda tá acontecendo, e vai seguindo sem previsão de conclusão. depois da Última, eu entendi que tem mudanças que consigo e até preciso sustentar sozinha, mas tem outras que não.
pra não demorar muito na dúvida — nesse caso, se consigo ou o que preciso mudar —, encontrei duas mulheres pra guiar esse caminho. pra mim, tô chamando esse processo de Mudança Assistida, mas isso basicamente significa que logo no começo do ano eu mergulhei num processo de mentoria de carreira e voltei pra análise.
a análise não é mais lacaniana, e eu agora passo mais de 15 minutos numa sessão de terapia (uma grande mudança!!!). meu trabalho formal, de seis anos na mesma organização, mudou de lugar comigo. mas o trabalho e o fuso são os mesmos de antes e, objetivamente, nada mudou. mas, internamente, sinto que comecei a romper com a minha última inércia.

esse é um movimento que, estruturado, já se estende por quatro meses e me acessar assim, sem tentar performar — o que envolve questionar minhas preferências, gostos, e os termos que uso pra falar de cada coisa sem pensar no que eu acho que deveria escolher —, tem demandado doses cavalares de honestidade e desapego dos resquícios de culpa pelas escolhas que fiz um dia. não tentar parecer diferente do que eu sou chega a ser contraintuitivo, principalmente em contexto profissional, mas desarmar essas armadilhas tem trazido mais clareza pro que me inquietava no começo dessa busca.
o que mudou mas nem tanto
o inverno, a mudança pra uma cidade nova, e a Mudança que quero sustentar pra um futuro ainda indefinido me guiaram por uma temporada de escavação nos últimos meses, parecida com as que eu fazia de tempos em tempos no Rio (eram tempos em que eu passava uns dias no quarto com meus cadernos, ar condicionado no talo e celular no modo avião).
agora, tenho experimentado escrever todos os dias, mesmo que pouquinho, e alternando um dia de português com um de inglês. também tenho lido um monte, e passado cada vez menos tempo em Plataformas de Anúncios (como tenho chamado o instagram ultimamente).
minha atenção online tem ficado pros facetimes de toda semana com as amigas do Brasil e o Caio. nessas ocasiões especiais, fico acordada até tarde e ajusto o fuso do meu corpo pra caber. e a distância, como já tinha escutado antes, não tem me afastado das minhas pessoas, só aproximado.
agora, me tornei oficialmente uma entusiasta das mudanças de inverno — e do acaso geográfico desse momento, que me trouxe pra longe dos perigos diurnos (bloco de carnaval, praia, suor, e samba) em um momento em que precisava de mais introspecção. as lesões, que finalmente têm doído menos e deixado meu corpo experimentar um pouquinho mais de intensidade, agradecem em dobro.

um beijo,
mari








Aaaaaahhh que saudade de te ler: sempre em movimento, sempre em travessia, sempre com MUDANÇAS! Um acalento caloroso num dia frio e cinza, um lembrete pra sempre: continuar!
Mari, que texto!!!! 🥹🥹🥹 me identifico com tudo tudo. Viva as mudanças de inverno e os descaralhamentos atemporais