oi!
hoje te escrevo de casa, enquanto tomo sol e café na sacada, enquanto não bate a hora do dia em que começa a ficar quente demais pra isso. acabei de fazer o exercício de escrita do curso que tô fazendo esse mês e dar mais um check na listinha de hábitos que ainda não aderi completamente e fico acompanhando assim, com uma rigidez artificial que notei que preciso quando quero começar a ter constância em alguma coisa que eu gosto. é também um jeito de ter mais contato com o quanto já fiz do que com o quanto ainda tem pra fazer.
daqui a pouco, quando o timo acordar, vamos olhar juntos os dados de corrida da semana dele pra planejar os treinos da semana que vem. timo é professor de educação física e sempre fez mil esportes, mas desde que nos conhecemos a corrida passou a fazer mais parte da vida dele. esse ano, ele decidiu que quer correr mais longe, e eu agora tô resgatando e atualizando o que aprendi nos últimos 10 anos pra apoiar.
a gente (eu e vcs) não chegou a conversar no detalhe sobre o que aconteceu com a corrida e minha obsessão por correr longe no último ano, então tive até que catar uns cadernos pra lembrar de como eu falava disso pra mim mesma. foi gostoso concluir que essa é uma passagem — não uma história — que eu contaria da mesma forma hoje.
o desafio desse início de ano foi não fazer planos pra pessoa que eu ainda vou virar e já foi um mês correndo exatamente como eu faria se tivesse grandes planos. pensando bem, tem sido melhor. tenho notado que se eu tivesse liberdade pra escolher o que fazer com meu tempo sem o compromisso de treinar pra uma prova de alto rendimento, eu escolheria correr como alguém que faz coisas extraordinárias só por gostar. faria tudo que fiz em 2024, mas mais feliz. então tenho feito.
esse ano quero estar aberta pra descobrir meus próximos sonhos. estou torcendo pra ser com a corrida, porque somos boas juntas, mas paciente e atenta pra escutar quando a aventura certa chamar. vou continuar correndo como eu gosto, curiosa, e abrindo espaço pra esse como mudar quantas vezes tiver que mudar.
eu já aprendi que eu também vou
— janeiro de 2025 🚚
o detalhe que não contei aqui é que nessa de correr menos eu fui, também, fazendo mais de outras coisas e alguma coisa aconteceu com a minha coluna. foram alguns meses de dor que não passava com alongamento e repouso. piorava à noite, depois de um dia de trabalho passado sentada na frente do computador.
então lá fui eu, mais uma vez pra mesa de ressonância magnética descobrir coisa que nem tava procurando. encontrei seis hérnias de disco, pra ser exata.
dá pra dizer que tive sorte de não ter esse diagnóstico associado à corrida, pelo bem da minha saúde mental. ter desencanado de correr por querer, meses antes, e não por ter que. mas foi um período conturbado, porque não dava só pra recalcular minha rotina e focar no tratamento pra voltar ao meu normal — na mesma época, me vi tomando a decisão mais difícil (e mais acertada, agora vejo, 7 meses depois) que tomei até agora, nessa minha vida adulta, que foi vender tudo que eu tinha no Rio, devolver meu apartamento, e vir morar com o timo na Alemanha.
demandou um nível de dissociação e até hoje não entendo como fiz toda essa mudança com tanta dor e praticamente sozinha. aliás, eu e as seis queridas hérnias que declaradamente agora eram parte de mim.
os primeiros meses depois desse diagnóstico foram de muita tentativa e erro e eu não desenvolvi muito interesse em me educar sobre essa minha condição, no começo. só fiz o que o ortopedista mandou (sessões de osteopatia, repouso, yoga, e remédios por dois meses), mas não sentia melhora. em alguns dias a dor até piorava.
tudo que eu vinha tentando quase que religiosamente parecia contraprodutivo. lembro que olhava pros dados das minhas atividades diárias no strava e simplesmente não fazia sentido que toda minha disciplina em me cuidar não tivesse sendo o bastante pra me curar.
me lembrei de uma conversa com a lari, no ano passado, em que contei que achava que minha compulsão alimentar (condição que me acompanhou, pelo menos, dos 13 aos 23 anos) tinha voltado, e ela sugeriu que eu começasse um diário pra registrar minhas refeições. fiz, por uma semana, e ela disse que não parecia que eu tava comendo demais e, na verdade, poderia até sugerir que eu aumentasse as quantidades de comida.
esse exercício me ajudou a reparar que meu desafio não era da ordem do comer, mas do distorcer. percebi que isso afeta não só minha relação com a comida, mas também aspectos mais profundos do que consiste em existir dentro da minha cabeça.

a ambivalência em saber tanto de si
eu entendo e até concordo com muitas das ideias que se popularizaram em torno da corrida nos últimos anos, mas uma que tive que aprender a discordar se eu quisesse sustentar esse esporte a longo prazo é a de que a corrida é um esporte maneiro porque que somos nossa própria/única/principal competição. a princípio, ela até adiciona um toque de humildade no discurso dos corredores que não buscam pódio e nem treinam por performance, mas acho esse foco na autossuperação um perigo.
eu acho que é uma ilusão pensar que é possível correr sempre melhor do que na última vez. e eu tenho certeza de que quem aprende isso é mais feliz correndo.
um dia eu soube que existe uma prática entre a galera que compete na moral, na corrida e no triatlo, de não mostrar os dados dos treinos nas redes sociais. entendo que é pra outros corredores que vão pra prova buscando pódio não terem muita noção de como vai tá a competição no dia, e gosto dessa ideia de que o atleta larga mirando em dar o máximo do que tiver pra dar no dia, e não no suficiente pra ser o mais rápido entre os mais rápidos, até porque ele nem sabe exatamente o que é o mais rápido.
claro, até dá pra ter uma ideia do nível da competição checando os resultados públicos das últimas provas, mas não de como as pessoas vão chegar preparadas pra próxima. se eu fosse uma atleta competitiva, não ter como saber detalhes sobre a performance dos outros me daria uma paz enorme.
conto disso porque percebi que é quase impossível ter tanto acesso indiscriminado aos dados e indicadores sobre a própria performance do passado e ficar em paz com as mudanças ao mesmo tempo. quando você tá lá, voltando de lesão e se lascando pra correr uma fração da distância com o dobro de esforço que já fez um dia, você olha pra um dado bruto no relógio, não pra constatação objetiva de que a vida é um acumulado de fases que, por si só, afetam a performance.
no longo prazo, entendi que olhar pra si como competição é uma cilada porque essa ideia simplesmente ignora as mudanças — do corpo, da rotina, do trabalho, da vida — fora dali. acho que ter clareza sobre isso possibilitou que eu seguisse correndo, sempre voltando, por quase 10 anos sem desanimar.
eu só não esperava que não taria livre das distorções agora, longe da corrida, no momento em que eu só queria melhorar das minhas dores e tava fazendo tudo tão certinho pra isso. acontece que não foi só meu limiar e tolerância pra dor que ficaram distorcidos depois de tantos anos correndo em condições um tanto extremas. meu parâmetro do que era razoável pro meu corpo de antes era treinar por umas 14 horas por semana em uma semana normal. pro de agora, eu tava dando metade disso e chamando de cuidado. quase repouso.
religiosamente, uma hora por dia, de volta à disciplina que eu conhecia e dava conta tão bem. se não melhorasse assim, ia melhorar como?
entregar
lá pra maio desse ano, eu mal tinha saco pra me alongar e já não queria mais fazer yoga, que mais parecia uma roleta-russa entre a dor e o bem-estar em que o bem-estar era a bala. eu simplesmente resolvi parar de tentar tanto.
aproveitei que ia começar a viajar pra pausar meu plano da academia e tentei me desligar da necessidade de uma explicação pro que tava me impedindo de melhorar. afinal, já me lesionei, já até fraturei osso, mas nada demorou tanto pra curar quanto as dores de agora e o que eu já fiz pra melhorar antes claramente não serve pro meu corpo de agora. ao mesmo tempo, comecei a pesquisar sobre dores crônicas, e me chamou atenção um aspecto parecido com o que já estudei sobre endurance: a parte que a psicologia dá mais conta de explicar do que a fisiologia — ou pelo menos tenta.
nas viagens, o único esforço físico que eu fazia, além de carregar minha mochila de um airbnb pro outro, era andar. lembro que tive até medo de marcar essas viagens, com receio de a minha coluna travar em algum momento e eu não conseguir conhecer as cidades andando, como eu tanto amo. mas fui, sem tentar achar uma solução pra esse problema que eu ainda nem tinha. o importante era estar com as minhas amigas, experimentar as comidas, os vinhos, e ver os cantos que eu nunca tinha visto antes.
pra minha surpresa, em um dia aleatório em madri, eu acordei sem dor.

o meu agora
de volta em casa e agora mais letrada nas particularidades técnicas que envolvem hérnias de disco e dores crônicas, fiquei curiosa pra ver o que rolaria se eu corresse. testei correr bem devagar algumas vezes, e comecei um diário pra acompanhar as oscilações do meu corpo de agora. meu principal recurso contra a distorção.
eu ainda tenho dor, mas não mais toda hora, nem todo dia. as corridinhas de 15 minutos viram 20 ou 25 em dias que meu corpo pede mais, e meu desafio agora é seguir conversando nessa nova língua. mais recentemente, fiz um teste de Cooper que me deu um retrato mais preciso do meu condicionamento atual — que me surpreendeu e quase me emocionou. vi que eu ainda tenho muito em mim.
contraintuitivamente, espacei mais os dias entre essas corridas e voltei pra musculação, por enquanto, com pesos de senhorinha. a prioridade agora é voltar a ter um corpo que tenha força pra sustentar as próprias vontades na corrida.
enquanto espero pra voltar no ortopedista pra um novo encontro com a máquina maldita, tenho terminado as corridas e ido embora da academia sempre antes de chegar no ponto de cansaço que eu conhecia e gostava de sentir. e tenho gostado disso também.
sem pressa. afinal, a corrida não vai a lugar nenhum. eu é que tô indo.

um beijo,
mari








"what is your now?" literalmente aguardando o parecendo do meu ortopedista depois de entrar na máquina maldita dois dias atrás, ler isso foi um bálsamo pra corredora agonia que revira na mente a possibilidade de ter que parar por mais tempo do que essa semana que passou. é só um momento, e vai passar.
mari, que texto mais gostoso de ler (me identifico tanto). acabei de descobrir que o normal da existência não é doer um pouquinho!!!!! obrigada. obrigada por compartilhar o seu processo com a corrida e com as fases da vida. amei as imagens também. enfim, já disse obrigada???